Meninos e Homens
Eu avisei que voltaria a falar de Henry Darger aqui.
Como virou hiperfoco junto com seu colega Van Gogh (também um artista doido de pedra, olha que "coincidência"), ainda terei muitos pedaços de sua história e trabalho para esmiuçar aqui. Esse é só mais um deles.
Henry Darger adorava crianças.
E ao ler essa frase, eu sei que veio um estranhamento na sua parte, caro leitor. Provavelmente eu mesmo teria esse estranhamento lendo o nome de um homem qualquer seguido do restante da frase. É instintivo.
Mas por que é assim?
Antes de entrar em detalhes nesse fator, darei mais contexto de onde veio isso tudo:
Após a morte de Darger, ao encontrarem seus manuscritos, desenhos e referências, viram que o mais grosso de seu trabalho envolvia a ilustração de crianças, muitas vezes com elas nuas.
Sim. A coisa fica cada vez mais estranha.
Nos seus cadernos e pastas, também haviam centenas de recortes de imagens que ele usava de referências para seus desenhos. Muitas crianças, em sua maioria. A referência mais preciosa para ele em local de destaque era a foto recortada de jornal de uma garotinha que havia sido assassinada há mais de 50 anos desde a descoberta de tudo aquilo.
Eu avisei que era estranho.
As pessoas envolvidas nisso também acharam, obviamente. As primeiras alegações sobre Darger ser um pedófilo perverso começaram de todos os lados. Isso talvez poderia ter sido sua perpétua infâmia, se não tivessem olhado um pouco mais na vida dele e em todo trabalho que havia deixado.
Baseado em registros das escolas, orfanato e manicômio em que ele esteve, seus empregadores e relatos de seus poucos conhecidos, além da sua própria autobiografia, a primeira impressão que Darger deixava não era nada compatível com a verdade.
Darger foi estuprado quando criança, possivelmente por um vigia noturno. E já sendo uma criança difícil, pelo abandono do próprio pai e órfão de mãe, quando ele começou com comportamentos hiperssexuais aos 8 anos, algo comum em vítimas de abuso infantil, a família o jogou em um orfanato. Aos doze anos, foi encaminhado para um manicômio, um dos mais infames presentes nos EUA da década de 10, que ficou conhecido pelos abusos físicos, psicológicos, trabalho forçado e o abuso sexual sistemático que ocorria com as crianças ali presentes. Darger caiu nesse sistema, ficando por lá até os 17 anos, quando apenas na terceira tentativa, conseguiu fugir do local.
"Estupro é quando lhe tiram as roupas e o abrem por dentro para ver o que há" foram as palavras do próprio Darger em um de seus escritos.
Desde que saiu do manicômio, Henry Darger ficou fissurado em uma única ideia: crianças deveriam ser amadas e protegidas, o contrário do que ele foi. Mas ele era uma pessoa estranha e com pouco traquejo social (psiquiatras nos anos 90 o diagnosticaram postumamente como Asperger, hoje em dia conhecido como autismo), e assim, sua maneira de expressar isso foi pela arte onde crianças mágicas lutavam contra forças do mau.
Foi dessa forma que por quarenta anos ele guardou a fotografia do caso de assassinato infantil que mais o indignou, a homenageou como um de seus personagens principais, e até mesmo tentou criar uma sociedade local de proteção às crianças (mas como Darger conhecia pouca gente, apenas ele e o parceiro foram os membros e a coisa não durou muito).
Ele tentou adotar por muitos anos. Mas como tinha o manicômio em seu histórico, nunca pode. Solteiro e homossexual, nunca teve filhos biológicos.
Em suas histórias, apesar de um exagero claro as cenas de violência nas partes de guerra, nenhuma criança foi sexualizada e suas cenas de morte são descritas como são: cruéis, tristes e chocantes. Darger deixava muito claro qual era o lado inocente e sem culpa de suas histórias. No final, as crianças sempre venciam e viviam em um mundo mágico repleto de maravilhas.
E a parte da nudez? Além de nenhuma das cenas ilustradas ter cunho sexual, havia um propósito claro nelas: Darger queria mostrar que suas garotas mágicas possuíam pênis, provavelmente por uma questão de gênero dele próprio (isso é assunto pra outro post, inclusive). Nada mais.
Tudo parece um pouco menos perturbador agora, a exceção da própria biografia do artista. As coisas realmente parecem esquisitas no início, mas tirando todos os maus entendidos: por que o estranhamento na maior parte das pessoas já vem na primeira parte: "[Homem] adorava crianças"?
E não, isso não é uma reflexão para culpar quem teve esse estranhamento. Isso é na verdade reflexo do próprio patriarcado e dos próprios homens. Em um mundo em que meninos e homens não são ensinados a serem paternais, e sim a até mesmo incentivados em certa escala a serem violentos com crianças, não é de se esperar qualquer outra reação da maior parte das pessoas. O primeiro instinto é a desconfiança generalizada e não é por poucos motivos. A própria infância de Darger mostra por si só.
É triste a desconfiança muitas vezes recair em gente como ele. Mas é uma consequência de um sistema adoecido e que quiçá um dia, será abolido para o melhor. Por homens que queiram realmente o bem estar de crianças, serem pais, serem protetores. Que um dia eles sejam norma.
"And to see a child happy makes the creature work hard to increase the happiness of that child." De seu livro, Henry Darger.