Arte bruta de novo e devaneios de alguém igualmente transtornado
Quem está ao meu redor não deve aguentar mais me ouvir falar sobre arte bruta/Outsider e Henry Darger, mas autismo faz isso com uma pessoa de ficar obcecada e repetitiva sobre um assunto ao ponto de se tornar insuportável. O famoso hiperfoco, na sua forma bruta (rs) e longe do que a internet transformou a palavra.
Mas como ainda não dividi nem 1/3 de toda verborragia que tenho para falar sobre esse assunto e todos os pensamentos adjacentes que nele vem (tirando um único post do Instagram, que está longe de ser um local de palavras), vou vitimar agora a minha singela audiência a essas reflexões.
Arte bruta ou Outsider é toda arte que vem de artistas autodidatas que sofreram pouca ou nenhuma influência da arte tradicional e acadêmica, com a grande parte de seus representantes sendo pessoas com transtornos mentais graves e neurodivergentes. Um de seus maiores representantes é o escritor e desenhista Henry Darger.
Por um período aproximado de 40 anos, Henry produziu sua arte de forma incansável, metódica e obsessiva. Quatorze mil páginas de uma história de ficção sobre garotas mágicas viajando o universo, totalmente ilustrada por desenhos enormes que tomavam todo seu apartamento.
Ele nunca publicou ou mostrou para alguém sua arte. Não era de seu interesse, ele fez tudo aquilo apenas para si, por satisfação própria. Isso é algo que me fascina e mudou completamente a forma de ver minha própria arte, mas isso deixarei para comentar e esmiuçar melhor em outro post do blog.
O que quero falar, é do tratamento inicial que deram para o que ele produziu.
Tudo foi descoberto nos anos setenta após sua morte, com o dono de seu apartamento de aluguel tendo encontrado tudo, e, por muita sorte, não resolveu jogar tudo fora. Pelo contrário, ele procurou galerias e críticos de arte para analisar e expor seu trabalho. Houve muita gente impressionada, porém, muitos se apavoraram com o que tinha naqueles desenhos.
Henry Darger trabalhava conforme seu estado de espírito. Quando estava bem e a vida lhe era boa, seus desenhos eram bonitos, coloridos e cheios de vida. Mas quando estava deprimido, irritado e com coisas muito ruins acontecendo, tudo isso era refletido na arte: as meninas contentes em um mundo mágico se transformaram em corpos degolados, enforcados e torturados.
Obviamente não foi bem visto em primeira mão, e quem sabe foi sorte ele não estar mais vivo para ver tudo aquilo. Entre as alegações dos críticos (e de até alguns psiquiatras) Henry deveria ter sido um sádico, pervertido, psicótico e até mesmo pedófilo. As provas? Desenhos sem grandes contextos.
Mas o contexto veio. Anos depois, com uma extensa pesquisa biográfica, coisas pertinentes foram se revelando sobre o artista: molestado quando criança, vivendo em manicômios da infância até a vida adulta, servindo na primeira guerra mundial e desprezado por toda uma sociedade capacitista e LGBTfóbica, a arte foi o mais próximo de uma terapia que Henry Darger encontrou. Hoje em dia, quem sabe seus desenhos não poderiam ter sido categorizados como as famosas "vent art".
E talvez aos olhos de hoje, tão distante dos anos setenta, ele teria sido visto diferente.
Ou não.
É isso que me faz refletir nesse texto. Em uma busca por uma literatura e arte cada vez mais higienizada e vendável nesse ponto da sociedade, duvido muito que os questionamentos a obra de Darger de inicialmente seriam muito diferentes dos daquela época. Quem sabe até não teria tudo jogado no lixo por um cobrador de aluguel mais impressionado.
A força para desprezar a arte de uma pessoa sobrevivente, queer e neurodivergente teria sido a mesma e quem sabe, até pior. Com direito a trend topics, provavelmente.
Me pergunto quantos Darger estão por aí temendo ser descobertos assim como ele foi um dia, não tendo mostrado absolutamente nada do que havia feito em vida para ninguém além do próprio parceiro. Pergunto até onde eu mesmo me encaixo nisso, até que ponto às vezes limito minha própria arte pensando menos no que sinto, extravaso e sangro no papel, mas em como isso será percebido por terceiros. Quantos contextos seriam precisos, se é que algum deles adiantaria de algo?
O que me conforta um pouco, é saber que sou uma formiguinha produzindo eco em sistemas de blogs defasados como esse. Talvez se há algo que Henry Darger pode ter ensinado, é que criar sozinho confabulando apenas na própria cabeça pode ser mais satisfatório que qualquer prestígio social.
Ou pode ser um atestado de insanidade. Interpretem como quiser.