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A eterna suposição da identidade queer

Quem está por perto de mim ou lê meus textos no blog, já sabe do meu hiperfoco em artistas tristes, doidos e já mortos, com uma dessas figuras que mais toma minha mente sendo a de Henry Darger

Então por isso usarei ele de exemplo de novo, pois sou comprovadamente obcecado.

Breve histórico, Henry Darger foi um artista de arte bruta entre os anos 20 e 70, em Chicago nos EUA. Sua arte foi descoberta apenas após a sua morte e ganhou muita fama póstuma em seu movimento de artistas autodidatas e sem educação formal.

E há mais de 50 anos, sua identidade queer é negada ou suavizada pela academia e estudiosos.

Este não é um texto forçando a barra sobre identidades atuais em pessoas já falecidas há muito tempo. É um comentário sobre como muitas vezes me parece mais estranho negar uma vida obviamente fora da norma hetero-cis em nome de uma vivência mais "honrada e normal" para figuras históricas. Como se a suposição fosse afronta ao status, um desrespeito a pessoa. Onde, mesmo quando há todos os índicios, não se pode ultrapassar o mundo das hipóteses.

Eu respeitaria por completo a norma de não especular demais sobre quem nem conhecemos. Se isso já não fosse algo comum de se fazer em outros sentidos (todos já ouvimos a história de mulheres antigamente sendo desequilibradas e "histéricas" por exemplo, sem entender melhor seus pormenores). Dois pesos, duas medidas pelo jeito…

Em suas biografias e AUTObiografias, Henry Darger estava longe de ser uma pessoa comum (e vai por mim, eu li muito sobre ele). Darger sonhava em se casar com seu amigo especial (termo queer para o namoro de homens em sua época) e herdar seu sobrenome. Queria ter adotado crianças junto dele, inclusive procurou formas de o fazer para serem pais juntos. Trocava o próprio nome e pronomes nas cartas que recebia, até rasurando os próprios documentos para ter outro nome do qual preferia: Annie.

Em seus trabalhos literários, garotos se transformavam nas garotas que sempre sonharam ser, de maneira constante através de mágica. Casais de mesmo gênero existiam com normalidade. Darger colocava em sua escrita o que era a sua vida.

E mesmo assim, não foi o suficiente para que fosse reconhecido pelo que era.

E não só por uma pressão para o encaixar na normalidade que se deu isso, mas também por conta de um estigma nefasto.

No início de seu legado, Darger foi visto como um sádico por crianças.

O motivo disso foram uma parte de seus desenhos e descrições de batalhas serem extremamente gráficos. Crianças enforcadas, torturadas e esvisceradas. Foi um choque para a maior parte das pessoas da época. O primeiro psiquiatra que analisou seus desenhos e escrita o chamou de perigoso.

Mas se havia algo que Darger gostava de fazer, era de deixar registros. E ele falou de sua vida, por vezes de forma mais suavizada como se já esperasse uma audiência futura, mas ele falou. Muito.

Henry Darger foi vítima de abuso sexual infantil, violência e tortura. Viveu em hospitais psiquiátricos dos oito anos (levado após o primeiro caso de abuso que lhe ocorreu), até os dezenove.

A arte foi o mais próximo de uma terapia legítima que ele teve. Era sua catarse, a forma que tinha para entender os próprios sentimentos com o que lhe ocorreu.

Isso foi visto pouco tempo depois das primeiras análises de seu trabalho, além dos depoimentos de pessoas próximas a ele quando vivo.

Ainda assim, o pré-conceito ficou. Mesmo cinquenta anos depois. Se você pesquisar por Henry Darger hoje mesmo, é mais fácil achar gente supondo que ele era um pedófilo e até assassino (?) do que uma pessoa queer sobrevivente de trauma.

O que é muito engraçado (de uma maneira trágica). Pois temos artistas abusadores infantis celebrados até hoje (olá, Lewis Carrol), que não receberam 1/3 de tanta represália.

É isso que quero dizer ao falar desse assunto. Que parece ser muito mais fácil impor e extrapolar um crime a uma minoria marginalizada, de preferência atrelada ao seu esteriótipo, do que respeitar aquilo que a pessoa usava para descrever a si e as suas vivências (nesse caso, uma identidade queer), só por ser menos confortável na visão normativa.

Faz eu me perguntar até que ponto fica o nosso legado, o quão fidedigna a academia pode ser com pessoas fora da norma e até que ponto realmente melhoramos isso? Creio que ainda há muito para ser descontruído nesse universo que é a pesquisa queer histórica, pois até quando será preciso podar as evidências, em uma tentativa pífia de ser "neutro"?

No final de tudo, Darger deixou claro muitas vezes que preferia ter sido conhecido (conhecida?) como Annie Aronburg, o nome que assinava seus escritos.

Mas ninguém nunca lhe deu essa chance.